Dossiê acadêmico sobre o Pacote de Belém, os 29 documentos da COP30 e o pós-COP30 no Brasil

Publicado em 28 de novembro de 2025 às 19:41

Por Gabi Pereira 

O Pacote de Belém, composto por vinte e nove documentos aprovados por consenso na COP30, representa um marco na governança climática global. Sua elaboração integrou contribuições de governos, cientistas, movimentos sociais, povos indígenas e organizações da sociedade civil. Este dossiê analisa os principais elementos do pacote, com base direta nos cinco documentos do site COP30.BR : “Chamado à Ação sobre Manejo Integrado do Fogo”, “Chamado de Belém pelo Clima”, “Compromisso Intergovernamental sobre Posse da Terra”, “Declaração de Belém sobre Fome, Pobreza e Ação Climática Centrada nas Pessoas” e “Declaração sobre o Lançamento do Fundo Florestas Tropicais Para Sempre (TFFF)”. A análise articula tais documentos com o contexto político do pós-COP30 no Brasil, especialmente diante da tramitação do chamado PL da Devastação. O objetivo é compreender como o pacote reposiciona o Brasil na diplomacia climática e quais contradições emergem entre compromissos internacionais e decisões internas.


1. Introdução.

A Conferência das Partes número 30, sediada em Belém do Pará, constituiu o evento climático mais relevante já realizado no hemisfério sul. Ao situar o debate climático dentro da maior floresta tropical do planeta, a COP30 deslocou simbolicamente o centro das decisões para territórios historicamente invisibilizados. Povos indígenas, populações ribeirinhas, quilombolas e trabalhadores urbanos passaram a protagonizar discussões antes conduzidas majoritariamente por governos e corporações. Esse movimento contribuiu para o desenho do Pacote de Belém, que consolida compromissos de adaptação, mitigação, financiamento e justiça climática.

A realização da conferência em Belém também repercutiu na agenda política brasileira. Na mesma medida em que o governo federal buscou alinhar-se ao papel de liderança global, o Congresso Nacional avançou em propostas que ameaçam retroceder em direitos socioambientais. Entre essas iniciativas, destaca-se o Projeto de Lei que flexibiliza normas ambientais, apelidado por organizações socioambientais de “PL da Devastação”. A simultaneidade desses processos expõe contradições e tensões inerentes ao papel do Brasil no cenário climático internacional.

Este dossiê organiza e analisa de forma crítica o conteúdo dos documentos enviados, situando-os dentro das negociações internacionais e do contexto interno, com foco na coerência entre discursos, políticas públicas e compromissos diplomáticos.


2. Metodologia.

A construção deste dossiê utilizou análise documental, com leitura integral dos cinco documentos fornecidos pelo site COP30.BR  aqui referenciados como:

[D1] Chamado à Ação sobre Manejo Integrado do Fogo.
[D2] Chamado de Belém pelo Clima.
[D3] Compromisso Intergovernamental sobre Posse da Terra.
[D4] Declaração de Belém sobre Fome, Pobreza e Ação Climática Centrada nas Pessoas.
[D5] Declaração sobre o Lançamento do Fundo Florestas Tropicais Para Sempre (TFFF).

Além deles, utilizou-se referência cruzada com:

  • O conjunto dos 29 documentos do Pacote de Belém divulgados pela presidência da COP30.

  • Relatórios de movimentos sociais presentes na Cúpula dos Povos.

  • Posicionamentos oficiais posteriores à COP, especialmente no que se refere ao PL da Devastação.

As seções abaixo apresentam sínteses analíticas, citações estruturais e articulações temáticas que permitem compreender a relevância e os impactos do Pacote de Belém.


3. Estrutura geral do Pacote de Belém.

O Pacote de Belém organiza-se em eixos que refletem prioridades globais:

  1. Adaptação Climática Baseada em Evidências.

  2. Financiamento Climático Justo e Previsível.

  3. Florestas Tropicais, Biodiversidade e Direitos Territoriais.

  4. Justiça Social, Redução da Pobreza e Segurança Alimentar.

  5. Transição Energética Justa.

  6. Riscos, Perdas e Danos.

  7. Governança Climática Global e Métricas de Implementação.

Os cinco documentos fornecidos pelo site COP30.BR  situam-se nos três eixos mais sensíveis: florestas, justiça social e adaptação. Sua análise conjunta demonstra como o Brasil buscou influenciar discussões estruturais, sobretudo ao vincular proteção ambiental a justiça social.


4. Documento 1 — Manejo Integrado do Fogo.

[Fonte: D1] - fornecidos pelo site COP30.BR 

O documento sobre manejo do fogo representa uma ruptura relevante dentro das políticas ambientais internacionais. Ele reconhece que, em diversos ecossistemas tropicais e savânicos, o uso controlado do fogo constitui técnica ancestral legitimada por povos indígenas. Esse reconhecimento transforma práticas tradicionalmente criminalizadas em instrumentos de gestão ambiental.

O documento estabelece diretrizes como:

  • Fortalecimento de brigadas comunitárias.

  • Reconhecimento de práticas indígenas como tecnologia climática.

  • Criação de sistemas nacionais integrados de prevenção.

  • Cooperação transfronteiriça entre países amazônicos.

Tal abordagem amplia a visão sobre incêndios, distinguindo entre queimadas criminosas e manejo cultural do fogo. Ao reconhecer saberes tradicionais, o documento reforça o protagonismo indígena nas políticas climáticas.


5. Documento 2 — Chamado de Belém pelo clima.

[Fonte: D2] fornecidos pelo site COP30.BR 

O Chamado de Belém é o documento político central da COP30. Ele afirma que a crise climática é atravessada por três lacunas estruturais:

  1. Lacuna de ambição: compromissos atuais não são suficientes para limitar o aquecimento.

  2. Lacuna de implementação: mesmo metas existentes não são cumpridas.

  3. Lacuna de financiamento: países em desenvolvimento não recebem recursos adequados.

O documento também defende:

  • Triplicar as energias renováveis até 2030.

  • Dobrar a eficiência energética.

  • Integrar justiça climática como métrica obrigatória.

  • Reformar profundamente o sistema financeiro internacional.

O texto assume tom declaratório e pretende servir como bússola política global. Seu caráter ambicioso reflete o papel diplomático do Brasil como país anfitrião.


6. Documento 3 — Posse da terra e direitos territoriais.

[Fonte: D3] fornecidos pelo site COP30.BR 

O Compromisso Intergovernamental sobre Posse da Terra projeta metas numéricas inéditas:

  • 80 milhões de hectares reconhecidos até 2030.

  • 80 milhões de hectares consolidados.

  • Entre 1,6 e 1,8 bilhões de dólares alocados ao processo.

  • 20% do TFFF destinados a povos indígenas.

A centralidade da segurança territorial decorre de evidências científicas que mostram que territórios protegidos por povos indígenas apresentam taxas de desmatamento muito inferiores às de áreas não demarcadas. O documento vincula direitos territoriais à efetividade climática.


7. Documento 4 — Fome, pobreza e ação centrada nas pessoas.

[Fonte: D4] fornecidos pelo site COP30.BR 

A Declaração de Belém sobre Fome e Pobreza afirma que a transição climática deve ser socialmente justa. O documento propõe:

  • Expansão de políticas de proteção social.

  • Apoio financeiro a agricultores familiares.

  • Fomento à agroecologia.

  • Garantia de acesso a energia limpa e acessível.

  • Planos nacionais de soberania alimentar.

A perspectiva do texto é evitar que políticas ambientais aprofundem vulnerabilidades socioeconômicas. O foco é a população mais pobre, que é também a mais afetada por eventos climáticos extremos.


8. Documento 5 — TFFF: Fundo Florestas Tropicais Para Sempre.

[Fonte: D5] fornecidos pelo site COP30.BR 

O TFFF propõe um fundo financeiro permanente com foco em florestas tropicais. Seu objetivo é garantir:

  • Fluxo contínuo de recursos para povos indígenas e comunidades tradicionais.

  • Financiamento estrutural para restauração e conservação.

  • Pagamentos por serviços ecossistêmicos.

  • Governança multilateral transparente.

O fundo é apresentado como tentativa de corrigir décadas de subfinanciamento da proteção florestal.


9. A Cúpula dos povos e o protagonismo das comunidades.

Enquanto negociações formais ocorriam entre chefes de Estado, paralelamente a Cúpula dos Povos reuniu milhares de participantes. O espaço destacou denúncias de violência fundiária, poluição urbana, precarização do trabalho e racismo ambiental. Movimentos de juventude, povos indígenas e organizações de moda sustentável, como o Fashion Revolution, articulam críticas ao modelo produtivo global, enfatizando a necessidade de transparência, economia circular e compensações socioambientais.

Esse espaço ampliou o conceito de justiça climática, conectando clima a trabalho digno, alimentação, segurança urbana e direitos culturais.


10. A contradição pós-COP30: O PL da Devastação.

Após o encerramento da COP30, o Congresso brasileiro retomou com velocidade o debate sobre medidas que flexibilizam regras de proteção ambiental. O chamado PL da Devastação inclui dispositivos que:

  • Reduzem exigências de licenciamento.

  • Aumentam flexibilizações para obras de infraestrutura.

  • Enfraquecem a fiscalização ambiental.

  • Permitem regularização fundiária ampla.

Tais medidas contradizem compromissos assumidos durante a COP, criando um cenário de tensão entre diplomacia climática e política interna.


11. Impactos econômicos, territoriais e geopolíticos.

O Pacote de Belém, se implementado, reposiciona o Brasil como líder climático global. Isso pode gerar:

  • Atração de investimentos verdes.

  • Expansão de mercados sustentáveis.

  • Fortalecimento de cadeias produtivas de baixo carbono.

No entanto, retrocessos legislativos internos podem gerar desconfiança internacional e afetar o fluxo de financiamento climático.


12. Conclusão.

O Pacote de Belém constitui avanço diplomático e técnico sem precedentes. Seus 29 documentos, especialmente os cinco analisados neste dossiê, oferecem diretrizes claras para adaptação, justiça climática e proteção florestal. Contudo, a coerência entre compromissos internacionais e decisões políticas nacionais permanece frágil. O Brasil encontra-se diante de uma encruzilhada histórica: consolidar sua liderança climática ou ceder a pressões internas contrárias à proteção ambiental.


Fontes:

Brasil. COP30. Chamado à Ação sobre Manejo Integrado do Fogo. 2025 - fornecidos pelo site COP30.BR 

Brasil. COP30. Chamado de Belém pelo Clima. 2025 - fornecidos pelo site COP30.BR 

Brasil. COP30. Compromisso Intergovernamental sobre Posse da Terra. 2025 - fornecidos pelo site COP30.BR 

Brasil. COP30. Declaração de Belém sobre Fome, Pobreza e Ação Centrada nas Pessoas. 2025 - fornecidos pelo site COP30.BR 

Brasil. COP30. Declaração sobre o Lançamento do Fundo Florestas Tropicais Para Sempre (TFFF). 2025 - fornecidos pelo site COP30.BR